Correr - sofrer ou prazer?

Gosto de corrida, mas nunca gostei de correr. Sempre me fascinou aqueles que correm meias-maratonas, nem falando daqueles que se submetem ao sacrifício da maratona completa - 42 quilómetros! Como é possível alguém ter força para correr essa distância e durante tanto tempo? Para quem sempre correu 5km de puro sofrimento, estive longe de gostar de correr.

A primeira tentativa (séria) no sentido de vir a gostar de correr, chegou em Outubro de 2015. Na altura completei um desafio para O Macaco sobre escrita, meditação e desporto durante 30 dias. Para além de surfar e jogar ténis, corri algumas vezes, e comecei a ganhar o "bichinho". Infelizmente, como expliquei num artigo anterior, deixei de correr logo que acabei esse desafio. Estive a poucos metros, ou talvez a alguns quilómetros, de ficar viciado.

Scott Jurek, ultra-maratonista, e Arnulfo Quimare, o campeão dos Tarahumara, a tribo dos corredores. Foto de irunwithit.com 
Antes de prosseguir com o artigo, queria deixar uma nota ao leitor. Ao longo deste artigo uso várias vezes a palavra "correr". Isso aborrece-me porque gosto de escrever e não quero utilizar várias vezes as mesmas palavras, mas não consigo evitar esta palavra num artigo como este. Que solução tenho eu? Usar a modernice do "running"? Eu sei que em inglês tudo parece mais sexy e espetacular, mas...

Comecei a correr há 3/4 meses no contexto doutro desafio. Ainda com muito esforço, fui aumentando gradualmente a distância nos meus treinos - se hoje chego ao primeiro poste, na próxima corrida chego ao segundo e na seguinte ao terceiro. Ou isso, ou melhorava o ritmo da corrida ou corria mais devagar mas durante mais tempo. E nisso a corrida tem um grande potential de vicio – conseguimos facilmente, com algumas apps como o RunKeeper, medir a nossa progressão. Podemos aumentar o nosso nível de várias maneiras e ver como evoluímos nos últimos treinos.

É claro que ao final de algumas semanas estava a correr mais. Mas o que mudou a minha corrida, e me fez gostar do desporto, foram dois livros: Born to Run, de Christopher Mcdougall e Eat and Run, de Scott Jurek. Nestes livros aprendi muito sobre corrida, como correr e, principalmente, como gostar deste desporto. Aconselho estes livros a todos a quem falo sobre corrida (qualquer pessoa que fale comigo durante mais de 5 minutos). Durante o resto do artigo vou apresentar o que aprendi nos últimos meses. 

E agora estás a pensar, "então mas este tipo começa a correr há quatro meses, lê dois livros, e acha que tem moral para dar dicas sobre corrida?". Tens razão, não tenho autoridade nesta matéria, mas nos últimos meses fiquei motivadíssimo para correr mais e melhor. Além disso, não escrevia n’O Macaco de Imitação há algum tempo, e preciso mesmo de começar a publicar regularmente para que não seja o primeiro e último leitor de artigos como este. Sinceridade acima de tudo!

Os Tarahumara

When you run on the earth and with the earth, you can run forever. —Provérbio Rarámuri

Em Born to Run, Christopher Mcdougall começa por falar de uma tribo de grandes corredores, os Tarahumara (ou Rarámuri). Estes "mexicanos" conseguem correr centenas de quilómetros por brincadeira, e há quem diga que o campeão lá da tribo correu, certa vez, 700km.

Esta última informação parece-me precipitada, mas a verdade é que nesta tribo toda a gente adora correr - desde crianças que o fazem e os seus jogos andam todos à volta disso.

Os Tarahumara. Fotografia de coppercanyonexplorer.com
Por algumas vezes, os Tarahumara foram levados a participar em algumas provas nos EUA (coisa que deixou de acontecer porque não só são muito tímidos mas perceberam que estavam a ser explorados). Correram sempre sem esforço aparente, ficando em primeiro lugar ou lá perto, e acabando a corrida com um sorriso no rosto (ao contrário dos seus companheiros de prova).

Os Tarahumara dispensam também qualquer sapato de corrida. Usam apenas um chinelo atado à volta do pé. Para os Tarahumara, isso é mais que suficiente.

No final do livro, Christopher Mcdougall fala-nos de uma corrida que organizou, e participou, na terra dos Tarahumara. Aí juntaram-se os melhores corredores da tribo e vários da elite dos estados unidos, incluindo o famoso Scott Jurek. Como dizem os americanos, "long story short", os Tarahumara venceram (Scott Jurek vingou-se no ano seguinte, numa repetição desta corrida).

Os Rarámuri mostram que não são precisas grandes tecnologias para correr. Correr liga-nos às nossas origens como espécie (o próximo tópico) e conecta-nos com a natureza. A correr podemos ser felizes, ou, ainda melhor, somos felizes porque corremos. A prova redize numa floresta perdida no México.

Os humanos são maratonistas por natureza

Nós, os humanos, somos os melhores corredores do planeta. Não em velocidade, claro, que ninguém duvide que a chita ou a gazela é mais rápida que o Usain Bolt, o humano mais rápido de sempre, mas em resistência somos campeões.

Ao que parece toda a nossa estrutura permite-nos correr largas distâncias durante várias horas. Os outros animais não o conseguem fazer, pois ao contrário de nós, que conseguímos libertar calor enquanto corremos, estes têm de parar para recuperar forças. Antes dos supermercados e dos sapatos de corrida, os humanos corriam atrás dos animais durante horas, mais lentamente que estes é certo, até que esses tivessem de parar, mortos de exaustão.

Este pedaço de informação, só por si, motivou-me para voltar a correr e pesquisar tudo e mais alguma coisa sobre esta "arte". Porque se fomos feitos para correr grandes distâncias, há que cumprir com esse destino.

Ultra-running

I had pushed myself to what I thought were the outer limits of my capabilities and then pushed farther—on a vegan diet. Eat and Run, Scott Jurek

Em Born to Run e Eat and Run, conheci uma série de corredores que não ficam satisfeitos com a típica meia-maratona, ou a esmagadora maratona. Não. Estes senhores e senhoras correm 50, 100, 200 ou até mais quilómetros de uma só vez.

Scott Jurek é um dos atletas mais fascinantes neste domínio. Ganhou várias provas de topo do mundo das ultras-maratonas (mais que uma vez) tais como as famosas Badwater 135, nos EAU e a Spartatlhon na Grécia (246km de uma só vez!). Scott tem ainda o recorde americano da maior distância percorrida em 24 horas, 265km! (Nunca usei tantos pontos de exclamação, mas este senhor merece!!!!).

Scott Jurek. Foto de twitter.com
Pessoas como o Scott são fascinantes, e inspiram-nos a quebrar os nossos limites e a fazer o nosso melhor, seja isso correr ou qualquer outra coisa. Depois de conhecer a sua história, não pude deixar de pensar, "se ele consegue, provavelmente também consigo". Bem, talvez não 265 km de uma só vez, nem mesmo 100, mas uma maratona...fácil!

Ultramarathons tend to attract obsessive people. To undertake a race of over 50 miles requires training that can occupy 3 hours a day, a routine that involves cramps and pain and loneliness. Eat and Run, Scott Jurek

Os melhores sapatos de corrida são...nenhuns

Ok. Esta foi a maior revelação das minhas leituras. Porque sempre pensei que os sapatos de corrida eram necessários para uma corrida de qualidade. Ao que parece não são.

O sapato de corrida moderno foi inventado apenas na década de 70. Aí introduziu-se um sapato com muito amortecimento, reforçando bastante a zona do calcanhar. Isso fez com que os corredores, principalmente aqueles com menos experiência, mudassem a sua forma de correr.

Everyone thinks they know how to run, but it’s really as nuanced as any other activity,” Eric told me. “Ask most people and they’ll say, ‘People just run the way they run.’ That’s ridiculous. Does everyone just swim the way they swim?” – Born to Run, Christopher Mcdougall

Há uma maneira certa de praticar running? (não resisti à tentação da palavra inglesa). Tal como existe técnica na natação ou no ténis, há maneiras bons e maus métodos de corrida. Esses sapatos fizeram com que os corredores, inconscientemente, tocassem primeiro com o calcanhar no solo.

E qual é o problema de tocar primeiro com o calcanhar no chão? Não é natural. Basta correr descalço (se somos maratonistas por natureza, somos maratonistas descalçados também) para perceber como dessa forma é doloroso. O "ataque" ao solo deve ser feito com o meio do pé ou até mais à frente, não confundindo com o toque no solo com as pontas dos pés que fazemos quando estamos em sprint, com ou sem sapatos.

Curiosamente, não existe nenhum estudo que prove que o uso de sapatos de corrida tradicionais traz vantagens à corrida. A nike e as outras marcas de sapatos não o negam. E felizmente tem aparecido nos últimos anos uma nova moda – os sapatos minimalistas. Estes têm um menor amortecimento, são mais leves e flexíveis e a diferença da espessura da sola entre o calcanhar e os dedos é menor.

Dito isto, devemos correr descalços? Porque não? Eu experimentei, na praia e na ciclovia, e a sensação é espetacular. Agora não digo para deixar de usar sapatos de corrida, mas é preciso pesquisar aqueles que respeitam a anatomia do pé e permitem o seu movimento natural.

O essencial é correr da maneira certa. Lembro-me perfeitamente quando, ainda com os mesmos sapatos de corrida, mudei o meu método de correr. Seguindo uma série de regras que vi nestes livros e através de pesquisas em tudo o que é blogs de corrida, comecei a dar mais passos, mais pequenos. Nestas condições, o pé tem naturalmente a tendência a chegar plano ao solo. Ganhamos mais energia na corrida (porque tocar no chão com o calcanhar trava o movimento), cansamo-nos menos e temos menos lesões (e isto sim está provado).

Não deixei de usar sapatos de corrida - até porque corro vários quilómetros na estrada e ciclovia e terra e calçada - mas comprei uns sapatos (modelo abaixo) que acredito serem mais amigos do pé e do corredor. 
Skechers Go Run 4, os meus novos ténis de corrida. Foto de skechers.com
Um pequeno aparte. Empregado da loja da Asics do Colombo, não sei o teu nome, mas se tiveres a ler isto, peço desculpa por não ter comprado os sapatos na tua loja. Gostei de falar contigo sobre meias-maratonas, alimentação e técnicas de corrida, mas não tinha ideia que uns sapatos de corrida podiam ser tão caros. Desculpa, fica para a maratona!

Método de corrida

Já escrevi um pouco sobre isto no tópico anterior. Mas preciso de o reforçar. A técnica, para começar, é muito simples: passos pequenos e contacto com o pé debaixo do corpo, ou um pouco mais à frente. Poderia dizer também para fazer o contacto com uma parte mais dianteira do pé, ao invés do calcanhar, mas nos primeiros treinos não há que ter essa preocupação. Isso surgirá naturalmente.

Mas há que começar devagar! Mesmo correndo há algum tempo, usamos alguns músculos mais intensamente, especialmente os gémeos, correndo desta forma "natural". Para evitar 4 dias de sofrimento é preciso ir com calma. Eu sei porque foi isso que me aconteceu aconteceu no último mês – carreguei nos quilómetros porque achei que já sabia tudo e que os outros é que eram fraquinhos.
Contacto errado e certo do pé com o solo.
Quanto ao aquecimento, li que devia ser feito antes e depois do treino, e que devemos beber alguma água antes de começar a correr. Quando comecei a fazer estas duas coisas muito simples, as dores musculares diminuíram substancialmente.

E o quão rápido devemos correr? O melhor que conseguirmos (o nível vai aumentando com o tempo) mas evitando aquele esforço que nos leva a desistir de correr e a arrumar os sapatos durante mais alguns meses. É difícil explicar este conceito, só experimentando, mas devemos correr a uma velocidade que nos permita falar com uma pessoa ao nosso lado, quase sem problema. Esta regra é ouro. Ao correr dessa forma, não ficamos cansados (ou melhor, ficamos, mas não pensamos sobre isso) até com distâncias superiores ao que fazíamos anteriormente. A sensação é espetacular. Claro que, treinando para uma prova, fazemos tipos de treinos diferentes, com ritmos distintos. Mas, para começar, devemos correr lentamente e ir elevando o número de quilómetros feitos em cada treino. 

Existem outras dicas de corrida, mas essas vamos aprendendo com o tempo. Uma vez começando a correr, e começando a gostar de o fazer, todos começamos a pesquisar mais técnicas e descobrimos coisas novas.

Correr – 4 meses depois

Runners speak of feeling absorbed into the universe, of seeing the story of life in a single weed on the side of the road. Eat and Run, Scott Jurek

Já diz o ditado, quem corre por gosto não cansa. É verdade. As minhas sessões de tortura a correr deram lugar a corridas meditativas – quando corro com tanto gosto, e com tão pouco esforço físico e mental, que me deixo absorver intensamente pela corrida. 

E é engraçado - se correr ao meu ritmo, tal como expliquei acima, nem muito rápido nem muito lento, fico com mais energia ao longo do treino. Entro em modo automático e consigo curtir mais, ver o que está à minha volta e pensar na vida.

The longer and farther I ran, the more I realized that what I was often chasing was a state of mind—a place where worries that seemed monumental melted away, where the beauty and timelessness of the universe, of the present moment, came into sharp focus. Eat and Run, Scott Jurek

Onde quiz chegar com este artigo? Primeiro, dar a conhecer algumas das curiosidades sobre corrida e mostrar que há por aí uns "malucos" que correm por gosto durante várias centenas de quilómetros. Pretendi mostrar que correr pode ser tão eficaz para libertação de stress como a meditação (uma boa desculpa para quem, como eu, já tentou meditar por várias vezes sem sucesso). No geral, tentei mostrar que correr, além de ser saudável, pode ser uma fonte de felicidade (desde que não corras 10km descalço no primeiro treino).

Deste lado, acabei de me inscrever na meia-maratona de Lisboa, no dia 2 de Outubro, por isso estou a poucos passos (ou 21 quilómetros) de me tornar um corredor oficial, com medalha (de participação) e tudo. Mais tarde escreverei sobre essa experiência, a menos que desista ou parta um pé.

PS: Faltam-me referências neste artigo. Li uma série de blogs sobre corrida de onde tirei alguma informação que aparece neste post. Infelizmente já não me lembro por onde andei.

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